quarta-feira, 27 de abril de 2011

O Paradigma João Batista

Rev. Márcio Retamero

“Cantai a Iahweh um cântico novo, seu louvor na assembléia de seus fiéis! Alegre-se Israel com aquele que o fez, os filhos de Sião festejem o seu rei! Louvem seu nome com danças, toquem para ele cítara e tambor!” Salmos 149.1-3




Tempos atrás, não muito distante, eu não gostava de dançar. Fui um adolescente muito tímido e por mais que minha mãe me incentivasse – ela gosta muito de dançar e o faz muito bem – eu me sentia envergonhado e sem molejo para os mais variados tipos de danças.

Sempre admirei quem dançasse bem. No caso, minha mãe era a pessoa que mais admirava – e ainda admiro – quando dançava. Lá na terra onde fui criado, chamamos as pessoas que dançam muito bem de “pé de valsa”. Cresci vendo gente dançar e ao som de música de muito boa qualidade, graças a Deus! Sempre amei a música de qualidade e dos mais variados tipos: MPB, clássicos, música italiana, samba etc. Ouvia-se muita música na casa materna e lá na casa da minha avó – mãe de minha mãe – sempre tinha algum som saindo do rádio ou da “vitrola”.

Nas festas de família, as pessoas sempre dançavam. Nas festas de aniversário dos meus colegas de escola, a mesma coisa.

Contudo, na escola dominical e nas aulas de doutrina na Igreja, eu ouvia meus professores e meu pastor dizer que “dançar não era coisa de crente”. Quando passava férias com meus avós paternos – batistas de boa cepa e gerações – também ouvia que dançar não era coisa de crente. Apesar da minha mãe, também batista, e que dançava sem culpas, eu absorvi profundamente este ensino da Igreja e não dançava, ainda que admirasse – em secreto – quem dançava. Principalmente samba! Eu ainda acho lindo uma pessoa que sabe sambar de verdade!

O tempo passou, a Igreja ficou para trás e seus ensinos e durante minha juventude e a descoberta e afirmação da sexualidade heterodiscordante, eu me “joguei” nas boates GLS e nos pagodes de fundo de quintal. Nesta época, perdi o medo de dançar, e não podia ouvir Madonna que era a senha para cair no molejo. Lembro-me de muitas músicas que escutava na boate “He Man” em Niterói e de como eu me jogava no “dance floor” com meus amigos. Lembro-me de um menino que era paralítico e que se jogava conosco e rodopiava sua cadeira de rodas pra lá e pra cá e do quanto que com ele aprendi.

Voltei pra Igreja e continuei dançando, ainda que ciente de que danço muito mal. Os anos passaram e para minha surpresa, a dança entrou para a Igreja! Fiquei escandalizado – principalmente porque quem trouxe para a assembléia dos fiéis a tal da dança foram os que nós chamávamos de “neo-pentecostais”. Para mim, dançar na Igreja era um sacrilégio e não adiantava ninguém me citar o salmo que abre este texto, pois logo dizia que não podíamos usar passagens do Velho Testamento para trazer “o mundo” para a Igreja.

Ninguém por melhor que fosse nos argumentos, me fazia entender a dança na Igreja! Aquilo ia de encontro a tudo que aprendi na infância e adolescência na Igreja e os argumentos que usavam comigo para me convencer da dança “eclesiástica” eram para mim argumentos inválidos e forçados.




O tempo passou novamente e eu conheci a “Igreja Inclusiva”, a Igreja da Comunidade Metropolitana do Rio de Janeiro, lá nos inícios do ano 2000. Na primeira conferência desta Igreja no Brasil, em 2003, fiquei chocado com um “número” de dança realizada por alguém que estava “montado” de espanhola, mas que o povo logo, logo, disse que era uma “pomba-gira”. Não fiz a mesma leitura do povo, para mim, era uma “montagem de espanhola” e achei feio aquilo, porque a Igreja não era lugar pra isso.

Nos cultos da ICM RJ, um jovem dançava. Na minha caretice, achava aquilo um verdadeiro horror. Um dia eu resolvi olhar de maneira diferente para aquilo e me emocionei com a dança do Diácono Marquinhos. Mas isso aconteceu apenas uma vez e eu continuava “empedrado” para a dança litúrgica.

Ainda “empedrado” comecei a estudar sozinho a questão da dança na tradição do Povo de Deus, mas logo no início da minha saga, começou na TV um programa de uma dessas gambiarras neopentecas lá dos EUA, embora fosse uma congregação de língua portuguesa. O “pastor” ou “apóstolo” tinha recebido um livro “dos anjos”, escrito em ouro, a última “revelação” de Jesus para a Igreja. Nos cultos televisionados, um grupo de meninas dançava feito “bonecos do posto”, com movimentos desorganizados e o argumento era que o “espírito” de Deus “entrava” nelas e as faziam dançar daquela maneira. Isso muito me escandalizou novamente e eu não quis mais saber dessa coisa de dança na Igreja.

Já pastor de uma Igreja Inclusiva, não concebia permitir a dança litúrgica na comunidade onde exercia o ministério da Palavra e Sacramentos. Ainda era forte o entendimento que aquilo não era coisa de “igreja séria” e que era coisa de “neopenteca”. Várias vezes os irmãos da Igreja que gostavam da expressão corporal na liturgia me pediam para pensar no assunto e eu fechado. No entanto, recomecei meus estudos acerca da dança no judaísmo e no cristianismo e encontrei pistas históricas consistentes o suficiente para entender que a dança sempre esteve presente na Igreja e que no Brasil, por exemplo, a manifestação de danças na Igreja Católica foi extinta por conta de Trento. Ainda assim, nos rincões do país, a dança prevaleceu, longe dos olhares inquisidores dos sacerdotes mais tridentinos.

Contudo, meu preconceito permanecia, embora percebesse que as “Igrejas Históricas” brasileiras e no exterior também tinham adotado a dança litúrgica. Assisti pela internet dois cultos que me deixaram de “boca aberta e queixo caído”: um na Catedral Nacional de Washington e outro na Catedral de São Pedro em Genebra, onde João Calvino fincou seu púlpito e exerceu ministério.

Poucos dias atrás estive em Belo Horizonte, capital das Minas Gerais para ensinar acerca de Teologia Inclusiva na Igreja da Comunidade Metropolitana daquela capital. Eu sabia que lá eles tinham um “ministério de dança”. Fui para BH esperando me escandalizar com a dança no culto e, de fato, fiquei escandalizado. Eu não conseguia ver além, apenas via um grupo de meninos que dançavam numa coreografia sem sentido, parecido com as aulas de aeróbica que minha irmã fazia na adolescência. No fundo, no fundo, meu preconceito me fez achar ridículo aquilo tudo.

No retorno ao Rio de Janeiro, me lembrei que por mais uma vez eu me emocionei com a dança litúrgica. Foi na Comunidade Cristã Nova Esperança de São Paulo, não me lembro a data, mas me lembro bem do “número”. Eles encenaram, dançando, a cena da cruz e fiquei profundamente impactado com a beleza de tudo e com a espiritualidade profunda dos meninos enquanto dançavam.

Continuei estudando e num determinado momento eu entendi que já tinha entendido que a dança não é ilegítima na Igreja e que sempre nela esteve, principalmente nos lugares onde a espiritualidade popular era permitida, onde não pesava a mão pesada da “ortodoxia”. Entendi que a questão não era mais estudo, mas quebra de preconceitos em mim e talvez uma resignificação do vocabulário usado pelas pessoas envolvidas com a dança litúrgica.

Eu preciso dizer que no meio disso tudo fui eleito pastor de uma Igreja Presbiteriana carioca e nesta comunidade de fé reformada, de maneira bem diferente da dança litúrgica que conhecemos, a dança tem o seu lugar. Acontece que na Igreja Presbiteriana da Praia, não temos um “ministério de dança”, mas a dança é ali expressão da comunidade que gosta de dançar e de cantar durante o culto, principalmente nos momentos litúrgicos cuja tônica é a alegria, como no momento da absolvição ou na comunhão. O maestro Serginho dia desses me disse que seu sonho é realizar uma liturgia em nossa comunidade toda dançante. Ele não sabe, mas eu fiquei receoso...

Na ICM Brasil nos reunimos uma vez por ano. Todas as comunidades brasileiras se reúnem na Semana Santa em retiro espiritual, são momentos de orações intensas e formação, além de profunda comunhão e unidade. Nas reuniões de planejamento da liderança, nos comunicaram que estava previsto uma oficina de dança que seria liderada pelos meninos de Belo Horizonte. O SARTEF (Ministério de Dança Sarando a Terra Ferida) seria o responsável por esta oficina. Não declarei na reunião minha contrariedade. Fiquei quieto e fui para o Retiro Nacional levando na bagagem os estudos que fiz, os versículos bíblicos que li e minha vida com a dança, além de um sincero posicionamento: eu não me fecharia “em copas” para a dança e tentaria entender. Orei pedindo a Deus que quebrasse, no sentido de entendimento em relação à dança litúrgica.




Logo no culto de abertura, os meninos do SARTEF dançaram. Os acordes que tocavam na minha alma ainda não eram harmônicos e eu permanecia preconceituoso. Achava tudo muito “efeminado” (homofobia internalizada?). Orei de novo e pedi a mesma coisa a Deus antes de sair do Rio: que Ele me ensinasse através deles.

Num dos cultos, o SATERF “ministrou” (está aí um exemplo da necessidade de resignificação) com danças. Enquanto dançavam, o líder do grupo dizia palavras como: o orgulho mancha a Igreja, o ego não pode ter lugar entre nós, Ele é tudo e nós nada somos... Os demais meninos faziam uma coreografia que expressava bem essas palavras e ali eu fui quebrado! Ali fui edificado, pois eles denunciavam uma postura muito em voga nos nossos dias na Igreja e apontavam para o Único e a Ele davam glórias e louvores. Pensei: esta apresentação pode muito bem ter o título “O Paradigma João Batista: que Ele cresça e eu diminua”.

O dia da oficina chegou e o Gilberth, que é o líder do SATERF, foi explicando para nós todas as coisas em relação à dança litúrgica. Fui entendendo, embora permanecia em mim a questão do vocabulário e da necessidade de resignificar isto. Ali eu fui curado do meu preconceito e consegui entender o belo trabalho deles e da importância disso para a liturgia. Aliás, liturgia é uma palavra que dá pra pensar bastante, pois ela significa “serviço do povo” e me faz lembrar que a “verdadeira” liturgia é aquela que acolhe as expressões desse povo, inclusive a expressão corporal e que deste ponto de vista não existe a liturgia legítima e a ilegítima, pois todas as liturgias devem ser expressões legítimas do povo que se reúne para adorar e louvar o Senhor, sempre atento à recomendação do apóstolo Paulo: ordem e decência.

Não presenciei ainda, é preciso dizer, nos cultos onde estive presente nestes últimos anos e que a dança litúrgica teve seu lugar, nada, absolutamente nada de desordeiro ou indecente, pelo contrário, sempre percebi profunda reverência, disciplina e espiritualidade nos integrantes dos grupos de dança.




Senti necessidade de escrever este texto e de publicá-lo porque entendo que sou uma pessoa em construção e que tenho o direito de não entender e de compreender na altura do Caminho onde peregrino. Existem coisas que ainda não compreendo, é óbvio. Existem coisas que hoje compreendo melhor que ontem e pretendo prosseguir nessa compreensão. No lugar onde Deus me colocou na Igreja, também preciso de cautela e discernimento, pois na docência é preciso sempre ser atalaia. O que não posso e o que não tenho o direito é de impor meus preconceitos às pessoas ou de não reconhecer legitimidade nas coisas por conta dos meus preconceitos e talvez, para minha vergonha, minha homofobia internalizada.

Eu agradeço muito a Deus por usar o SATERF nesses últimos dias para entender e discernir o que hoje entendo e discirno em relação à dança litúrgica. Aos meninos mineirinhos de Belo Horizonte, da nossa Igreja, dedico esta pública confissão e o meu agradecimento pela paciência, oração e humildade com que vocês me ensinaram.

Oro para que haja mais expressões legítimas da fé do nosso povo em nossas Igrejas e que com decência e ordem, demos glórias a Deus, pois a Ele toda a honra e glória são devidas. O Paradigma João Batista seja a nossa bússola em todas as coisas que para Deus realizamos em nossas comunidades de fé: que Ele cresça e que nós diminuamos! Que Ele nos abençoe e guarde.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Mensagem de Esperança nº 17



“Porque todos eles procuravam atemorizar-nos, dizendo: As suas mãos largarão a obra, e não se efetuará. Agora, pois, ó Deus, fortalece as minhas mãos.” Neemias 6.9

          Você conhece a história de Neemias? Ele foi um dos grandes homens de Deus do passado, cuja história de vida está registrada no livro que leva o seu nome, o 16º livro do Antigo Testamento ou Primeiro Testamento.

          Neemias estava exilado na Babilônia e servia como copeiro do rei Artaxerxes em Susã. Ao receber a visita de um de seus irmãos, Hanani, fez a pergunta que também nós fazemos quando passamos muito tempo longe dos lugares e das pessoas que amamos: como vãos as coisas? Como estão as pessoas? Como vai Jerusalém?

          As notícias que Neemias recebeu de seu irmão Hanani eram as piores possíveis: “Os restantes, que não foram levados para o exílio e se acham lá na província, estão em grande miséria e desprezo; os muros de Jerusalém estão derribados, e as suas portas, queimadas.” (Ne 1.3).

          O impacto das notícias más jogou Neemias ao chão. Uma profunda depressão tomou conta do seu ser, de modo que muito chorou, se desanimou, não comeu nem beber e orou a Deus, após passar por este período de comiseração:

“Ah! Senhor, Deus dos céus, Deus grande e terrível, que guardas a aliança e a misericórdia para com aqueles que te amam e guardam os teus mandamentos! Estejam, pois, atentos os teus ouvidos e os teus olhos, abertos, para acudires à oração do teu servo, que hoje faço à tua presença, dia e noite, pelos filhos de Israel, teus servos; faço confissão pelos pecados dos filhos de Israel, os quais temos cometido contra ti; pois eu e a casa de meu pai temos pecado. Temos procedido corruptamente contra ti, não temos guardado os mandamentos, nem os estatutos, nem os juízos que ordenaste a Moisés, teu servo. Lembra-te da palavra que ordenaste a Moisés, teu servo, dizendo: Se transgredires os meus mandamentos, eu vos espalharei por entre os povos; mas, se vos converterdes a mim, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes, então, ainda que os vossos rejeitados estejam pelas extremidades do céu, de lá os ajuntarei e os trarei para o lugar que tenho escolhido para ali habitar o meu nome. Estes ainda são teus servos que se agradam de temer o teu nome; concede que seja bem sucedido hoje o teu servo e dá-lhe mercê perante este homem” (Ne 1.5-11).

          Neemias não conseguiu ficar só na depressão, apenas entregue à comiseração, porque se ele permanecesse neste lugar de depressão, nada mudaria na vida do seu povo, na vida da sua cidade, da sua pátria e na sua vida em particular! A depressão tem o poder de paralisarmos e de paralisar tão somente a nossa vida, pois o mundo não pára conosco. Tudo continua a caminhar, tudo continua a andar e se o quadro dos que amamos e de onde vivemos não é bom, nossa depressão não vai melhorar o quadro. Nada faremos e as coisas continuarão péssimas.

          Neemias, homem de Deus, sabia disso! Por isso, deixou o lugar da comiseração e da depressão, não antes sem visitar o Senhor em oração, para Dele receber forças e vigor. Também fez algo muito importante em sua oração: reconheceu que era um pecador e que seu povo era pecador e, por isso, por errarem o alvo e não cumprirem os mandamentos do Senhor, as conseqüências dos seus atos era toda aquela assolação que estavam imersos.

          Lembramos do salmista: “enquanto calei meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia” (Sl 32.3). A consequencia da soberba da cauterização da nossa consciência que nos leva a delirar nos achando não pecadores, além de nos cegar para a nossa realidade existencial, nos envelhece os ossos, ou seja, nos mina as forças de modo que, ficar em pé, se torna impossibilidade. Como reagir aos fatos da nossa vida se não estamos de pé? Como lutar se não estamos de pé? Como fazer uma obra importante que mudará a nossa existência e daqueles que estão ao nosso redor, seja em nossa própria casa, seja em nossa cidade ou país, se não estamos de pé?

          Assim como Neemias, devemos nos manter de pé, através da oração de confissão de pecados, pois o mesmo Salmo 32, nos afirma: “Confessei-te o meu pecado e a minha iniqüidade não mais ocultei. Disse: confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniqüidade do meu pecado” (Sl 32.5). O Senhor nosso Deus, meus irmãos e irmãs, é o Deus de Amor e de misericórdia. Ele nos perdoa os pecados, está sempre pronto a isso. Suas misericórdias não tem fim. Grande é a Sua fidelidade!

          Neemias se levantou de sua oração certo do perdão de Deus e assim nós também devemos nos levantar das nossas orações de confissão de pecados. Contudo, Neemias não parou ai. Ele continuou e quando teve oportunidade, pediu ao rei Artaxerxes que o enviasse à Jerusalém e lhe desse tudo o que fosse necessário para fazer uma grande obra: reconstruir a cidade e dar dignidade existencial ao povo que estava ali, esquecido e miserável.

          Neemias pediu ao Senhor me sua oração que achasse mercê diante daquele rei, o único que poderia lhe dar condições de empreender esta grande obra, humanamente falando. Deus foi fiel e atendeu sua oração. Nós também devemos agir assim; devemos pedir ao Senhor que achemos mercê diante daqueles que podem efetivamente nos ajudar nas obras de nossas vidas, seja em nossa vida pessoal, afetiva, familiar ou profissional. Deus nos concede os pedidos. Quando isso acontecer, devemos “entrar de cabeça” na obra que temos de realizar, temos que nos focar e seguir adiante com os recursos que Deus nos deu.

         Assim fez Neemias: voltou para Judá, entrou em Jerusalém e iniciou, não sem a ajuda de outros – pois nenhum homem é uma ilha e ninguém vai longe sem que outras mãos estejam apegadas às suas – a obra para a qual foi chamado a realizar.

        Qual é a obra que o Senhor te chama a realizar hoje? Qual é a obra na qual você está engajado neste momento? Qual é a obra, o projeto, os planos que você tem apresentado ao Senhor para a sua vida? E o que você está fazendo para que a obra seja terminada? Você tem sido soberbo e abrindo mão da ajuda que pessoas estão dispostas a lhe dar ou você reconhece que necessita da ajuda das pessoas ao redor?

          Neemias iniciou a grande obra de reconstrução da cidade e das vidas das pessoas, mas não sem oposição. Três homens, Sambalate, Tobias e Gesém se opuseram à Neemias e à sua tarefa na grande obra que ele tinha a realizar. Esses homens fizeram de tudo para atrapalhar Neemias: o intimidaram, querendo paralisá-lo pelo medo; subornaram pessoas para mentirem a respeito do caráter e da sua honestidade; inventaram pretensões que Neemias jamais teve; planejaram matá-lo e destruí-lo. Nada, porém, conseguiram. Por que não conseguiram, por mais que tentassem? Primeiro, porque o Senhor estava com ele, uma vez que Neemias não fazia nada sem o auxílio de Deus, sem apresentar ao Senhor seus planos e tudo entregar nas mãos do Senhor. Segundo, porque Neemias estava focado na grande obra que tinha de realizar. Não deu ouvidos. Não temeu. Não ficou parado. Não esqueceu da obra que tinha de realizar para se enredar nas artimanhas dos seus inimigos.

          Inocente e ingênuo – infantil, na verdade – é aquele que pensa que em suas obras, em suas tarefas, em seus projetos e sonhos, não encontrará forte oposição, vinda de todos os lados. E glória a Deus pelas oposições, irmãos, pois elas nos dão forças para empreendermos a obra! Todos os três procuravam paralisar Neemias, enfraquecer e frustrar sua grande obra. Neemias, porém, não temeu, não deu ouvidos, não paralisou, não perdeu tempo com eles. Neemias orou e pediu: fortalece, Senhor, as minhas mãos.

          Irmãos e irmãs, estou certo que você, neste momento, realiza alguma grande obra em sua vida, nas mais variadas áreas da sua existência: na igreja, na vida pessoal, na vida em família, na vida profissional. Estou certo, que neste momento, você, assim como Neemias, tem enfrentado oposição ferrenha à obra que tens realizado. O Inimigo de nossas almas usa pessoas para isso, usa circunstâncias para desanimá-lo e fazê-lo desistir das obras que você neste momento realiza.

          Não dê ouvidos. Não se atemorize. Não perca tempo com eles. Você tem uma grande obra para realizar. Não se deixe, não se permita paralisar.

          Antes, ore ao nosso Deus, que é Deus Vivo e pronto em nos atender as orações. Confesse seus pecados ao Senhor e esteja certo do perdão de todos eles. Revigora-te diante de Deus e não descuide de ouvir a Sua Palavra em comunidade. Não se afaste da tua comunidade de fé, pois a fé vem por ouvir e ouvir a Palavra de Deus (Romanos 10.17). Lembre-se: nenhum ser humano é uma ilha. Por isso, ser cristão e cristã, fortalecer-se pela fé no Deus Vivo, é em comunidade que o fazemos. Ninguém é ou consegue ser cristão sozinho, afastado de uma comunidade de fé: a fé vem pelo ouvir e ouvir a Palavra de Deus.

          Ore. Ore em comunidade. Ore em teu quarto. Levante tuas mãos aos céus e peça: fortaleça, Senhor, as minhas mãos. Não se desvie nem para direita nem para esquerda da obra que você tem realizado. Não ouça os inimigos. Não os temas. Ore e prossiga, pois o Senhor é contigo se assim o fizeres.

          Que o Senhor fortaleça suas mãos, adestre tuas mãos, te visite com força e vigor. Em nome de Jesus. Amém.

Mensagem de Esperança nº 16

“... porque tu és pó e ao pó tornarás”. Gn 3.19

          Na Quarta-feira de Cinzas iniciamos o tempo litúrgico da Igreja chamado “Quaresma”; durante quarenta dias, cristãos e cristãs ao redor da Terra meditarão sobre a condição humana, sua aventura e desafios, seu caminhar como agentes de transformação, suas obras em prol da construção da revolucionária civilização do amor. O texto base dos Evangelhos para a nossa reflexão durante este grande retiro que a Igreja nos propõe é a chamada “Tentação de Jesus no deserto”, que encontramos em: Mc 1.12,13/ Lc 4.1-13 e Mt 4.1-11.

          Durante este grande retiro, aos domingos, escutaremos o chamado de Jesus à conversão; esta, mais que um “levantar de mãos aceitando Jesus como Senhor e Salvador”, se expressa concretamente em nossas ações e intervenções no “mundo”, entendendo-se por “mundo” não o binário oposto “igreja x mundo”, mas nossa realidade circundante. O que, de fato, estamos fazendo para transformar o mundo na civilização do amor? O quanto contribuímos para que se concretize o que Jesus propôs? Somos sal e luz nesta terra?

          A reflexão é válida e urgente, pois vivemos dias maus. Vivemos dias nos quais os “convertidos” se alinhados aos “não-convertidos” podem ser reprovados no prumo da Lei de Cristo. A Quaresma nos recorda que cristianismo não é “religião virtual”, tampouco “teoria religiosa”, muito menos lugar de uma contemplação descarnada da realidade que nos cerca. A Quaresma nos recorda que não somos chamados para nos reunirmos dominicalmente entre quatro paredes com cânticos e orações, edificados por um sermão que trata de questões metafísicas tão somente! Nada disso! A Quaresma nos recorda que somos agentes do Cristo, agentes de transformação de uma realidade má, egoísta, pervertida, caída, miserável.

          A liturgia da Quarta-feira de Cinzas proclama a nós: “lembra-te, ó homem, que tu és pó e ao pó tornarás”. Tal proclamação não visa nossa humilhação, mas à nossa edificação. Tal proclamação nos recorda nossa condição humana e é, na Quaresma, a primeira chamada à transformação que parte de nós. “A começar em mim”.

          Quando nos recordamos da nossa condição humana, da nossa finitude na carne, e ouvimos tal apelo e respondemos sim ao chamado, tem início, em nós, o processo de autoconhecimento que Calvino nos diz ser o caminho, a via, a vereda que nos conduz a Deus Pai mediante Jesus, que se fez pó para nos ensinar que é possível uma vivência enquanto pó que não é estéril, antes, frutífera e plena de potencial transformador, pois foi assim que Ele viveu enquanto foi pó.

          Somente quando nos conscientizamos da nossa dupla condição: finitos e eternos conseguiremos andar no Caminho, na Verdade e na Vida, transformando-nos e transformando a realidade que nos cerca. Quando nos conscientizamos da nossa condição de seres finitos na carne, relativizamos tudo que se opõe à obra do Espírito Santo em nós que visa a nossa mudança interior. Tal mudança, também chamada de conversão, não pode ser algo apenas no interior do nosso ser, mas semente plena de potencial de vida, que nos leva à ação; são os frutos.

          Muitas vezes Jesus comparou seres humanos às árvores e em todas as vezes que Ele fez isso foi veementemente enfático: no Reino de Deus, árvore que não dá fruto para nada serve! Caminhando para Jerusalém, Ele encontra uma figueira viçosamente verde, mas quando chegou perto para dela apanhar um fruto que lhe matasse a fome, nada encontrou. Então, ele amaldiçoou esta árvore, pois ela não frutificava!

          Não existe cristão sem fruto! Se não dá frutos, não é cristão! É árvore condenada.

          O Espírito Santo, pelas Escrituras, nos interpela durante a Quaresma: que frutos temos dado para a honra e glória de Deus, para a edificação da sua Igreja e para a transformação deste mundo caído na civilização do amor?

          Teve início nosso grande retiro anual como povo de Deus e minha oração e meu desejo é que a partir da conscientização da nossa finitude enquanto carne sejamos árvores frutíferas, agentes de transformação da realidade má que nos cerca. O Senhor Jesus sonda suas figueiras para delas apanhar frutos; que Ele ache em nós os frutos que busca! Seja assim! Amém.

Mensagem de Esperança nº 15



“Eis que a mão do Senhor não está encolhida, para que não possa salvar; nem surdo o seu ouvido, para não poder ouvir. Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça”. Isaías 59.1-2.

          Não são poucas as vezes que sentimos Deus longe de nós. Tendo em vista as insistentes orações que lhe fazemos; os vários pedidos sem respostas, a sensação que nos sobe ao coração é que Ele de nós se apartou.

          Quando uma grande tragédia se abate sobre povos, como aconteceu a pouco no Haiti, perguntamos boquiabertos: onde está o Senhor que não salva essa gente?!

          Os versículos que acabamos de ler, do capítulo 59 do livro do profeta Isaías, nos garante que a mão do Senhor não está encolhida para que não possa salvar; nem surdo o seu ouvido para não poder ouvir.

          Este texto faz parte de um conjunto maior que vai do capítulo 56 ao capítulo 66 do livro de Isaías, é uma resposta do profeta aos seus contemporâneos que estavam em grandes dificuldades na tarefa de reconstruir Jerusalém. Para eles parecia que tudo estava dando errado, não conseguiam avançar na tarefa; o Templo não foi reconstruído neste primeiro momento, somente o altar; os samaritanos estavam lhes impedindo o comércio; os irmãos que não foram para o exílio, estavam entregues ao culto de deuses pagãos e até sacrifícios humanos e prostituição sagrada praticavam; enfim, aos fiéis ao Senhor parecia que Ele estava com a mão encolhida e surdo.

          Assim também ficamos nós quando passamos por grandes dificuldades ou quando temos que cumprir uma difícil tarefa e não conseguimos. Oramos e oramos e parece que Deus não ouve! Pedimos sua intervenção e parece que Ele dorme, que está surdo! Por que isso acontece?

          Sei que neste momento, muitas pessoas estão passando por muitas dificuldades, sejam dificuldades na família, nos estudos, financeira; dificuldades no relacionamento afetivo, no trabalho, na vida pessoal. São pessoas que estão orando e pedindo orações há vários meses, algumas há anos... Recebo e-mails com pedidos de oração todos os dias e hoje uma pessoa me escreveu assinando “Órfã de Deus”.

          Ontem, uma mulher me telefonou. Ela nunca esteve na igreja onde sou pastor. Pegou o telefone na internet e achou que eu teria uma palavra para ela, pois estava, nas palavras dela, “fraca na fé”, a ponto de “desistir de Deus”, pois estava no olho do furacão e não encontrava saída.

          O texto que cito para nossa meditação nos dá uma das possíveis respostas quando perguntamos onde está o Senhor que não nos ouve ou quando sentimos que sua mão não está sobre as nossas vidas. Quando o céu se faz céu de chumbo sobre nossas cabeças e quando nossas orações não passam do teto, geralmente agimos como agimos em nossos relacionamentos com nossos semelhantes: fazemos projeções. A “culpa” sempre é do outro quando há um desentendimento. Nunca nossa! Assim também fazemos com Deus: projetamos; a culpa é Dele; é Ele que não nos ouve; é Ele que permanece longe e com a mão encolhida; é Ele que se faz de surdo e não nos responde.

          Isaías nos vira o espelho e nos faz nos enxergar a nós mesmos: “Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça”.

          Como detestamos quando alguém nos vira o espelho que gostamos tanto de usar para fazer com que os outros se enxerguem, e, assim, sempre nos livrarmos de nos encararmos a nós mesmos com sinceridade e verdade! Como detestamos textos que nos levam à reflexão sobre nós mesmos!

          Calvino escreveu nas primeiras páginas das suas “Institutas”: o autoconhecimento nos leva a Deus. Sabem por quê? Porque quanto mais nos autoconhecemos, mais percebemos o quanto necessitamos da Graça, da misericórdia, do amor e do bem que só Deus pode nos contemplar. Quando nos encaramos com sinceridade e verdade, sem autopiedade ou autocomiseração, então e somente então, buscamos em Deus o que nos falta, o que não nos é natural.

          Deus fala pela boa do profeta Isaías: são as vossas iniqüidades e os vossos pecados que separam vocês de Deus; são as vossas faltas que encobrem seu rosto para que não vos ouça!

          Nós precisamos nos encarar! Precisamos de, em verdade, nos enfrentarmos a nós mesmos: somos pecadores. Todavia, isso não é passaporte para vivermos na iniqüidade, pois se é verdade que somos pecadores, é também verdade que estamos em Cristo, o Caminho, a Verdade e a Vida. Portanto, nossa conduta deve ser sempre a conduta de acertar o alvo e fazer corretas as veredas que temos sob nossos pés. Usar nossa condição de pecadores para vivermos errando o alvo é tornarmo-nos iníquos.

         Nossa condição de peregrinos na vida, tendo como Caminho o Senhor Jesus, nos dá uma bússola, uma Carta Magna, uma Lei; dá-nos um rumo, uma ética sob a qual viver; uma mensagem para espalharmos: amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a nós mesmos.

          Não amar é pecar. Viver não amando é cair em iniqüidade. Errar o alvo é se esconder da face de Deus e tornar surdos os seus ouvidos às nossas orações. Se acostumar em errar o alvo, usando nossa condição de pecadores naturais, é se tornar cínico. Tomar a postura da cara para fora de cristão e viver errando o alvo não fazendo absolutamente nada para acertá-lo é debochar da face de Deus.

          Eu perguntei algumas coisas à mulher que me telefonou dizendo que estava fraca na fé, a ponto de desistir de Deus. Só ouvi respostas auto-indulgentes. O tempo todo ela se desculpava de tudo. O tempo todo colocava o espelho na cara dos outros e escondia a própria face. Ela era a vítima dos outros. Percebi que para ela, assim como para muitos de nós, o véu espesso do autoconhecimento não tinha ainda se rasgado.

          Quando comecei a escrever essas mensagens que envio a vocês, resolvi chamá-las de “mensagens de esperança”. Antes que você me escreva dizendo que esta não parece uma mensagem de esperança, mas uma mensagem de acusação, de julgamento, deixa eu te dizer uma coisa: é impossível termos esperança - se esperança para nós é a esperança cristã, uma das virtudes cristãs - se somos incapazes de fazermos exame de consciência e reconhecermos que somos pecadores. Reconhecer isso é reconhecer que somos dependentes de Deus e que só Ele é bom, só Ele é misericordioso, só Ele é capaz de nos converter, de nos fazer nos enxergar a nós mesmos de verdade e nos chamar para uma vida pelo amor.

          Todo bem só reside em Deus, não em nós! Nós somos preconceituosos, ciumentos, briguentos, invejosos, não afetuosos, auto-indulgentes, cínicos muitas vezes, falsos com nossos semelhantes, caluniadores, temos maus olhos para os outros, julgamos, apontamos, desmerecemos, desqualificamos...

          Sim, eu poderia fazer como os demais pastores por ai e dizer que pecado é sexo e vícios. Poderia dizer que se você for fiel, financeiramente falando à Betel, você conseguiria “tudinho” que você deseja! Poderia dizer a você que se você freqüentasse assiduamente a igreja, você seria o maior vencedor e que suas preces todas teriam respostas. Eu poderia inventar campanhas, correntes, novenas, culto disso e daquilo para te anestesiar a consciência e te fazer um ser “idiotizado”, covarde. Poderia, depois de você encher os cofres de Betel do teu dinheiro, freqüentar todas as campanhas que inventei e jejuar a ponto de ficar bem magrinho, que você não conseguiu a vitória que buscava porque você é um fraco na fé, devendo se empenhar mais para obter a bênção que pede... Mas eu me recuso a esse papel. Eu sei que darei contas ao meu Deus por todos os que Ele me confiou, por isso, te digo: Deus não se afastou de você!

          Deus não é um sádico cujo prazer consiste em nos ver buscar, buscar e buscar para não alcançar. Deus não é humano! Deus é amor e os seus só podem viver em vitória, amando! Não há outro caminho! Não há outra saída! Não há atalhos!

          Não, amados irmãos, a mão do Senhor não está en
colhida, nem surdo seu ouvido! Nós é que não estamos acertando o alvo! Saiba, fora do amor, não há salvação! Grave isso no seu coração, faça dessa mensagem seu pão, desse caminho a sua via de viagem aqui na terra, então, e somente então, você verá suas orações respondidas e jamais perderá a fé ou desistirá de Deus.

Mensagem de Esperança nº 14

“Então, lhe disse Jesus: Levanta-te, toma teu leito e anda”. João 5.8

          João escolheu sete sinais ou milagres de Jesus para escrever seu Evangelho. Não por acaso ele escolheu sete, pois nas Escrituras, o número sete significa totalidade, perfeição, inteireza. Tais sete sinais ou milagres estão lá para testemunharem aos leitores fiéis do seu Evangelho que Jesus Cristo é o Filho de Deus, o Salvador do mundo.

          Conta-nos João no capítulo 5 do seu Evangelho que Jesus estava em Jerusalém para uma “festa dos judeus”, provavelmente uma das três grandes festas litúrgicas da religião judaica (Páscoa, Pentecostes ou Tabernáculos). Nessas ocasiões, todo homem judeu era obrigado pela Lei a participar “in loco”. Jesus, que morava em Cafarnaum, na Galiléia dos Gentios, teve que descer, junto com seus discípulos, para festejar.

          Encontrando-se em Jerusalém, Jesus passou pela “Porta das Ovelhas” e lá se encontrava uma “piscina” chamada Betesda, nome que significa “Casa da Misericórdia”, provavelmente uma enfermaria pública com banhos, segundo os estudiosos do Novo Testamento. Neste lugar, se encontrava inúmeros, “uma grande multidão” de enfermos: “cegos, coxos e paralíticos”. Eles estavam ali esperando o “movimento das águas”, que segundo a mitologia deles, eram agitadas por um anjo. Tais águas curavam.

          Um paralítico há trinta e oito anos será o alvo da misericórdia do Filho de Deus em Betesda. Ele estava “há muito tempo ali”, esperando seu milagre. Acontece que, por ser paralítico, não conseguia descer às águas, sempre alguém conseguia descer antes dele. Jesus, percebendo tudo, perguntou ao homem: “Queres ficar são”?

          Ele disse que sim, mas que como não tinha ninguém que o descesse às águas, outros iam antes dele, frustrando, assim, sua esperança de ser curado. Então Jesus lhe disse: Levanta-te, toma o teu leito e anda.

          Prestemos atenção nos detalhes deste texto: Jesus pergunta ao paralítico, doente há quase quatro décadas se ele deseja a cura! Tenho um amigo, pastor presbiteriano, que diz que essa é umas das passagens de humor do Novo Testamento. Como assim, Jesus?! Por que perguntar ao paralítico há quase quatro décadas, que estava à beira de Betesda “há muito tempo”, se ele quer ser curado?

          Eu tenho firme convicção, pela fé, que nenhuma das palavras de Jesus foram ditas a esmo! Jesus não jogou nenhuma de suas palavras ao vento. Tudo o que disse foi e ainda importante para nossas vidas. Sei que Jesus perguntou àquele homem, enfermo há tempo, parado ali há tanto tempo, se ele desejava ficar são, porque Jesus sabe e nós também sabemos hoje, que muitos doentes não desejam a cura. Isso é possível?!

          É! Desgraçadamente, é possível sim! Muitos são os que têm prazer na dor, são viciados na autocomiseração, são viciados no sofrimento, os freudianos chamam tais de masoquistas. São pessoas que sentem prazer no sofrimento! Acostumaram-se tanto com a dor, com a doença, com a autocomiseração, que sem ela ficam completamente perdidos. É o sofrimento deles que suscita a atenção dos outros. É a longa enfermidade deles que os fazem visíveis. É pela dor e pelo sofrimento que eles chamam atenção para si mesma e para a vida horrível que levam.

          Não sei você, mas eu conheço algumas pessoas assim! Conheço pessoas que nunca estão bem e se você pergunta como elas vão, prepare-se para ouvir a mesma coisa de sempre. Então elas ouvem de nós as palavras de conforto, um abraço, um beijo e até mesmo uma oração e isso é a dose delas da “morfina existencial” que as faz alegres em meio à dor e à autocomiseração.

          Tais pessoas não desejam a cura. Acostumaram-se com a dor. Amam o sofrimento e sem ele, para elas, não é possível viver. Elas até dizem que desejam uma vida melhor, livre do sofrimento e da dor, mas vivem buscando o prazer na dor e no sofrimento. O homem paralítico, no tanque de Betesda, poderia ser uma dessas pessoas e por isso, somente por isso, Jesus lhe faz a pergunta, que não é óbvia quando se trata de pessoas enfermas há muitos anos, pois elas podem sofrer de masoquismo.

          Contudo, aquele paralítico quer a cura e Jesus então opera nele o que ele deseja, pela fé.

          Paralíticos existem muitos na vida. São de tipos variados, não somente os físicos. Na verdade, os paralíticos existenciais são mais numerosos que os deficientes físicos! Não querem que a vida vá pra frente. Fazem de tudo para fazer das estações da vida uma eterna parada. Eles se fixam num determinado ponto da estrada da vida e ficam ali, vendo a vida passar e nada anda em suas existências porque eles se acostumaram com a paralisia existencial deles. Curtem sofrer ali, parados, quietinhos.

          A pergunta de Jesus feita num dia de sábado em Jerusalém a um anônimo paralítico ainda interpela os paralíticos de toda ordem estejam onde estiverem na linha do tempo. Você quer ser curado? Você deseja ficar são?

          Só escutarão o “levanta-te, toma o teu leito e anda” aqueles que realmente desejam a cura para a sua paralisia! Os demais ficarão como aqueles que estavam em Betesda e não foram curados; o texto diz que ali estava uma “multidão”, mas apenas um foi curado por Jesus.

          Eu desejo, seja qual for a paralisia da sua vida, que você queira a cura! Masoquismo é uma doença e deve ser tratada como todas as outras enfermidades que assolam nosso corpo físico e nossa mente! Não pode existir felicidade, bênçãos e paz na vida de um masoquista! Ele precisa da verdadeira cura que trará alegria e vida em abundância.

          Responda ao Senhor que te interpela hoje, pelo Espírito Santo, se você deseja ser curado: sim, Senhor, eu desejo a minha cura!

          Então, levanta-te, toma teu leito (tua existência) e anda! 

Mensagem de Esperança nº 13

“Naqueles dias, dispondo-se Maria, foi apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá, entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel.” Lc 1.39-40.

          Lucas registra tantos detalhes dos dias que antecedem o nascimento de Jesus que, muitas vezes, passamos por cima de grandes ensinamentos que ali estão registrados para nos ensinar muito acerca da nossa existência. Não tenho dúvidas que tais detalhes não estão ali registrados para preencher espaço, mas para nos fazer compreender lições importantes que nos ajudarão em nossa caminhada.

          Todo o capítulo primeiro do evangelho de Lucas é dedicado aos antecedentes do nascimento de Jesus, o Natal. Aparece antes de Jesus, a figura de João Batista, sua pré-história, bem como a de Jesus. Isso é muito importante, porque João é o precursor de Jesus, o último profeta do Antigo Testamento. Até João, estava em vigor a Lei. Em Jesus, cumpre-se a Lei e tem início o tempo da Graça, a Era do Espírito Santo, o tempo da Igreja, que não é, como nos ensinou Calvino, placa denominacional, mas o ajuntamento do povo de Deus em toda terra mais os irmãos e irmãs que estão com Cristo.

          Lucas liga João e Jesus pelos seus respectivos pais. Segundo este evangelista, João é primo de Jesus, pois Isabel, a mãe de João, é prima de Maria, mãe de Jesus. Conta-nos Lucas que após receber a visita e a notícia de que seria Mãe do Salvador, Maria, avisada pelo mesmo anjo que Isabel estava no sexto mês de gravidez, dispôs-se “apressadamente” (detalhe importantíssimo!) à região montanhosa de Judá, onde residiam Isabel e Zacarias. Maria, já grávida, portanto, deixa o conforto do seu lar para ajudar uma mulher idosa, grávida!

          Qual é a lição que aqui aprendemos? Qual é a mensagem de esperança que nos traz este detalhe dos dias que antecedem o Natal do Senhor Jesus?

          Quando teve que dar uma resposta ao anjo que a visitava com aquela estranha notícia, Maria respondeu: “Aqui está a serva do Senhor” (Lc 1.38b). Serva ou servo é aquele que serve; ser servo/serva é o contrário de ser senhor/senhora. Senhor e senhora mandam, ordenam. Servo/serva obedecem. Maria foi serva, pois obedeceu ao Senhor que a escolheu para ser a mãe de Jesus. Foi além, pois encarnando em si mesma o Verbo feito carne, o vivo evangelho, não se tornou senhora, mas serva do semelhante, tal qual seu Filho ensinaria mais tarde, já adulto: “Vós me chamais o Mestre e Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13.13-14).

          Por Maria ter compreendido que sua missão não era ser senhora, afinal, trazia no ventre o Servo, Filho de Deus, então, ainda grávida, dispôs-se “apressadamente” a servir sua “parenta” Isabel, idosa, também grávida, moradora de uma região de difícil acesso (a região montanhosa de Judá). Aqui, Deus nos ensina, através da vida de Maria, que todos os chamados em Cristo, ou seja, nós - temos uma missão: servir nosso semelhante.

          Aqui também se nos revela um importante aspecto, ou melhor, um dos frutos do Natal: o estreitamento de relações. O Espírito de Deus - que em nós habita - nos chama com forte voz para estreitarmos nossos relacionamentos a fim de os tornarmos relevantes e profundos. A começar, como começou em Maria, em nossa própria casa, em nossa família! O Natal nos traz presentes para além da pessoa de Jesus, nos traz o firme laço que nos estreita aos nossos – aos nossos duplamente, pois como Igreja, como comum-unidade, somos também, família.

          Maria, segundo os evangelhos, residia no norte de Israel, em Nazaré, na região da Galiléia. Sua parenta Isabel, residia no sul de Israel, na região montanhosa de Judá. Separava-as uma grande distância mediada pela região da Samaria. Grávida, Maria precisou se colocar no Caminho, “ser peregrina” rumo ao sul, onde encontrava-se aquela que dela necessitava. “Apressadamente”, foi ao encontro de quem dela necessitava! Laços, que talvez pela distância geográfica, estavam frouxos, foram estreitados!

          Talvez você, assim como Maria, encontra-se distante dos que necessitam de você; talvez você, assim como Maria, está geograficamente distante dos seus e talvez essa geografia distante nem seja a concreta, a física, mas outra geografia, a existencial, a de dentro, a do coração! Talvez seus laços, que devem ser estreitos, estão frouxos, tanto em relação à sua família consangüínea quanto em relação à sua “família maior”, a sua Igreja. Portanto, a mensagem do Espírito Santo ao teu coração neste dia é: vai “apressadamente” e disponha-te a servir os de longe e os de perto que necessitam, neste momento, de sua ajuda! Vá e sirva!

          Nesses dias do Advento, nos quais, como Igreja nos preparamos para celebrarmos o Natal do Senhor Jesus, faça-te servo dos seus semelhantes, como Maria fez-se serva de Isabel; como Jesus fez-se servo de todos e todas. “Quem não vive para servir, não serve para viver”, diz o ditado popular!

          Nesses dias que antecedem o Natal do Senhor Jesus, aprendamos a lição! Tornemo-nos, de fato, servos, não apenas com palavras, mas com ações verdadeiras, concretas! O Natal, se assim você agir, trará presentes mais significativos em sua vida que meros artigos de luxo! Trará para você e para mim – se assim procedermos, estreitamento de laços familiares, estreitamento de laços em nossa “família maior”; trará pessoas, verdadeiros presentes de Deus em nossas vidas! Muitos são os que padecem de isolamento social; muitos são os que amargam uma existência sem laços profundos com os outros, sem relacionamentos afetivos; em nome de Jesus, não se assim entre nós!

Mensagem de Esperança nº 12

“E não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal” Mt 6.13

          O Quinto e último pedido da Oração do Senhor nos encoraja a orar para que não caiamos em tentação e que nos livre do mal.
          Tal pedido é um grito de socorro para que Deus nosso Pai nos preserve de nos desviarmos do Caminho, da Verdade e da Vida que é Cristo Jesus.
          A tentação de que se fala no “Pai Nosso”, não é a tentação de “todo dia”, a que nos leva ao pecado, mas da tentação última, a mais grave, a que pode nos desviar, a que nos faz desistir do Caminho. Os discípulos de Jesus pedem no fim da Oração do Senhor que sejam preservados da apostasia.
          A tentação que nos leva ao pecado, ao erro do alvo do amor, vem de nós mesmos. Deus não nos “tenta” ao pecado (Tg 1.13-14) e não permitirá que sejamos tentados além das nossas forças (1Co 10.13). Nisso estamos seguros e o que deve partir do nosso coração é a confiança de que Ele nos guarda e nos guardará. Por isso, os estudiosos como Joaquim Jeremias e Rudolf Bultmann entendem neste último pedido não o livramento da tentação cotidiana, mas o livramento da tentação final, a que pode nos levar à apostasia.
          No Evangelho de Lucas, capítulo 22, versículos 31 e 32, vemos Jesus exortando Pedro e declarando que o Inimigo pediu para tentar a Pedro. Sim, o Inimigo não pode agir sem a devida permissão de Deus, como também nos atesta o Livro de Jó. Jesus diz a Simão que após esta provação (tentação), Pedro se “converteria”, ou seja, reveria seu caminhar, tomaria outro rumo, o caminho certo (metanóia) e que, após isso, fortaleceria a vida dos irmãos e irmãs que com ele caminhava.
          Deus não nos tenta, mas permite provações. As provações não têm o objetivo de nos destruir, de nos desfalecer e nem mesmo de nos desviar do Caminho. Não! Deus permite as provações para que sejamos fortalecidos e, assim, termos aptidão para fortalecer as vidas dos nossos semelhantes que também passam por provações.
          Jesus, o único mediador entre Deus e os homens, assim como intercedeu por Pedro e o livrou da apostasia final (ele negou Jesus, mas se arrependeu), assim também intercede por nós junto ao Pai, para que nenhuma de nossas provações nos conduza ao desviar do Caminho. Percebam que tudo é Graça e que somente a Graça pode operar em nosso favor, de modo que se não fosse a Graça de Cristo, certamente nos desviaríamos, pois muitos são os atalhos que encontramos na vida para que seja assim.
          Grande é a misericórdia do Senhor para conosco!
          A apostasia final é o não reconhecimento do Senhorio e da Soberania de Deus Pai, Filho e Espírito Santo no mundo. É abandonar-se à própria sorte e não reconhecer que Deus é Deus. Tal apostasia nos faz trilhar caminhos de morte, não de vida. Faz-nos negar Jesus e ficar parado ai, na negação, ao contrário de Pedro, que chorou amargamente sua atitude, sendo fortalecido em sua fé que deu profissão após estes tristes acontecimentos, pregando o Evangelho a toda criatura que encontrasse.
          A apostasia final é fazer o que ordenou a esposa de Jó para ele: “amaldiçoa teu Deus e morre!” Não fosse a misericórdia do Senhor, a intercessão de Jesus por nós junto ao Pai, certamente já teríamos feito isso! Por isso, na Oração do Senhor, pedimos que Ele não permita que sejamos tentados e que nos livre do mal, o maior, o abandona-se à própria sorte, o caminhar sozinho, o não reconhecimento de Seu Senhorio e Soberania sobre nós.
          O final da Oração do Senhor, que chamamos de doxologia, aparece em algumas traduções, como a Revista e Atualizada, entre colchetes. Isso significa que este trecho [pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre] não é trecho original do autor, no caso aqui, Mateus, mas interpolação da Igreja, portanto “voz” da Igreja e por isso oramos como a Igreja orou no primeiro século. Esta doxologia é a nossa resposta ao livramento que Deus nos dá da apostasia: dizemos que Dele é o reino (o domínio, a soberania), o poder (a liberdade de executar os atos de justiça) e a glória (a doxa, em grego, aquela que ninguém pode ofuscar, a santidade primeira e única, total), “para sempre”, pois Deus não tem princípio nem fim e reconhecemos que é para sempre pois nos colocamos neste para sempre de Deus, eternos que somos Nele.
          O Catecismo Maior de Westminster, na pergunta de número 196, que versa sobre a conclusão da Oração do Senhor, traz a seguinte resposta que jamais devemos esquecer:
          “A conclusão da Oração Dominical, que é: “Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém”, nos ensina a reforçar as nossas petições com argumentos que devem ser derivados não de qualquer mérito que haja em nós ou em qualquer criatura, mas de Deus; a ajuntar louvores às nossas orações, atribuindo a Deus, somente, a soberania eterna, a onipotência e gloriosa excelência, em virtude do que, como ele pode e quer socorrer-nos, assim nós, pela fé, estamos animados a instar com ele que atenda aos nossos pedidos, bem como a confiar tranquilamente que assim o fará. E para testemunhar os nossos desejos e certeza de sermos ouvidos, dizemos Amém.”
          Graças damos ao Senhor por tão grande livramento: o da apostasia. Graças damos ao Senhor pela sua soberania, pelo seu domínio e pelo seu trabalho em nós! Por isso, ore sempre o “Pai Nosso”, nele está contido o Evangelho, como afirmou Tertuliano; e nele temos verdadeira instrução para o nosso proceder firme enquanto caminhamos em Jesus: o Caminho, a Verdade e a Vida. Seja assim, para sempre! Amém!